sexta-feira, 22 de junho de 2012

Como conseguir escravos voluntários.


Os bichos dispararam a galope para o pátio. Viram, então, o que ela vira. Um porco caminhava sobre as duas patas traseiras. [...] Momentos depois saiu pela porta da casa uma comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as patas de trás. [...] Houve um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns junto dos outros, os bichos olhavam a fila de porcos marchar lentamente ao redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar o mundo de cabeça para baixo. Então veio um momento em que, passado o primeiro choque e a despeito de tudo – a despeito do terror dos cachorros e do hábito, arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca criticarem, pouco importa o que sucedesse-, poderiam lançar uma palavra de protesto. Mas exatamente nesse instante, como se obedecessem a um sinal combinado, as ovelhas, em uníssono, irromperam num balido espetacular: “Quatro pernas bom, duas perna melhor! Quatro pernas bom, duas perna melhor!” – A revolução dos bichos, de George Orwell, 1945.
O trecho acima é do livro que terminei de ler esta semana. Não atendeu às minhas expectativas, mas é um livro que com toda certeza deve ser lido por todos em algum momento da vida. Enfim, das várias leituras que pude fazer do livro, a ideia do uso da mídia como forma de controle autoritário e manipulação, foi uma das mais interessantes.
Resumindo, o livro trata sobre a rebelião que os animais de uma fazenda fazem contra o dono deles após se cansarem de ser tão distratados e perceberem que o ser dependente era o homem e não os bichos. Expulsados os donos da fazenda, os animais se organizam a fim de gerencia-la. A princípio, os porcos assumem o papel administrativo e estratégico, mas pouco a pouco tomam o poder e passam a controlar os demais animais da fazenda segundo seus próprios interesses. Porém agem de tal forma que todos os bichos da fazenda acreditam estar fazendo o melhor para si e a viver os melhores anos de suas vidas.
Uma das primeiras ações dos animais foi o criar regras, leis, que deviam ser seguidas por todos. Entre essas regras estava que todo animal que andasse sobre duas pernas era inimigo (referência à locomoção humana) e que era terminantemente proibido aos bichos andarem desta forma. As leis foram criadas pelos porcos, mas com “participação” dos demais animais.
Impedir, de modo passivo, a manifestação de ideias contrárias, desviar a atenção para acontecimentos sem importância, distorcer fatos e ser incisivo ao pôr ideias favoráveis a seus interesses; era uma das estratégias usadas pelos porcos para manipular os outros animais.
As ovelhas, animais pouco inteligentes na história, eram um recurso de manipulação. Elas repetiam em alto tom e continuamente frases que iam de encontro aos ideais suínos. Calando os outros bichos. Durante toda a história as ovelhas aparecem cumprindo seu papel com maestria, e os bichos cada dia mais perdem a voz.
Passam os anos e os animais não se dão conta do que acontecem e tornam-se escravos voluntariamente. Os ideais da revolução não se cumprem, os bichos pensam, mas não reclamam. E quando tentam, não têm vez.
Levanto essa questão porque nestas últimas semanas isso tem se cumprido na nossa sociedade e, assim como os animais da fazenda, ninguém se da conta. Manifestações contra o sistema educacional brasileiro acontecem em todo o país, mas a imprensa só dá valor a um crime familiar e a um reality show.
Uma verdadeira avalanche acontece na política nacional, escândalos políticos vêm à tona, e coincidentemente segredos do passado de uma celebridade ganham as manchetes.  Em pleno ano de eleições o destaque dos jornais são campeonatos de futebol e de luta.
Então, vemos como temos sido manipulados e aparentemente não nos damos conta disso. Passamos horas em frente à televisão, mas não percebemos o que de fato é relevante. Dispusemo-nos a discutir sobre tudo, exceto sobre aquilo que nos atinge diretamente. E diante da perplexidade dos fatos, nos deixamos calar, mesmo assim. Assim, temos sorrateiramente nossas ideias suprimidas e vozes caladas sem reagir a essa ação.
Por isso, indignado eu penso: Até quando o povo brasileiro será escravo voluntariamente? Até quando vamos submeter o interesse coletivo ao de poucos. Até quando vamos ser passivos no mundo em que vivemos, pensando em reclamar, mas permanecendo calados? Quando será que finalmente compreenderemos que o poder é da maioria se esta se colocar em posição de ataque?

terça-feira, 19 de junho de 2012

Nem só cordeiro e nem só lobo.


Será que as pessoas suportariam meu lado lobo? Sim, porque desde muito cedo fui educado a ser gentil com as pessoas, buscar a harmonia das relações, a evitar as desavenças. Porém, acabei levando isso a certo extremo. E hoje, percebo que me tornei condescendente demais e as pessoas acostumaram-se ao Felipe bonzinho, bem humorado, que não ultrapassa limites, zela pelos outros e chega a ser patético. Mas o fato é que por ser eu tão oposto a isso, e viver em uma luta constante tentando dominar esse lado “mau”, me faz pensar sobre como as pessoas reagiriam caso eu mostrasse esse lobo que cansou de se esforçar para pastar.
Uma das razões que me leva a esse questionamento é simples fato de que todas as vezes em que fui um pouquinho de mim mesmo as pessoas choraram, se assustaram ou se afastaram. Então, penso: Ah... Não é legal fazer as pessoas chorarem. Mas por que será então que ninguém se preocupa em não me fazer chorar? Por que somente eu tenho que entender o comportamento egoísta dos outros e deixar minha vontade de lado? Por que cabe a eu zelar pelo bem estar dos outros enquanto vejo a grande maioria não fazer o mesmo por mim.
Pois bem, decidi ser mais eu. Rude como sou, ignorante como sou, explosivo como sou. E parar de pisar em ovos com as pessoas e pensar mais no que quero para mim mesmo. Afinal na natureza em si há duas categorias de seres: presas e predadores, e definitivamente eu não sou uma presa. Tenho muitas qualidades, mas também muitos defeitos e quem quiser gostar de mim que goste de mim por completo. Sempre levei isso em conta com todos os meus amigos e relações. Pois, nem todo lobo é só mau, e nem todo cordeiro é só bom.

domingo, 27 de maio de 2012

Na Medida


A medida certa para a vida. Tendemos a viver no extremo de tudo. Seja quanto à alimentação, prática esportiva, crenças, estudos, trabalho e por aí vai. A busca pela perfeição que é colocada em nossa cabeça desde a infância nos leva a viver de modo tão extremo tudo o que fazemos que nos perdemos e deixamos de fazer o que realmente importa: viver.
Minha mãe vivia dizendo que café faz mal (e pra me fazer parar de beber tanto café dizia que café nos deixava “burros”). Em contrapartida, fazia-me beber litros de suco de laranja dizendo que era importante por ter Vitamina C. Mas o fato é que a cafeína, na dose certa, é benéfica. Por exemplo, ela aumenta nossa capacidade sináptica ajudando a melhorar nossa capacidade compreensão e rendimento nas tarefas (diferente do que a minha mãe dizia, ajuda-nos a ficar inteligentes). Já a vitamina C em excesso atinge diretamente nosso sistema cardiovascular, aumentando o risco de infarto e derrame.
Há mais... Exercício físico na medida certa evita uma série de doenças, mas seu excesso provoca desgaste corporal, estresse e desequilíbrio hormonal. Nossas crenças nos dão uma orientação na vida, ajuda-nos a criar uma identidade própria. Mas o excesso nos leva ao isolamento social, à depressão e à perda de identidade. Isso sem falar nos atentados diversos feitos por pessoas fundamentalistas. Estudar, trabalhar é importantíssimo. Constrói-nos como seres humanos e faz-nos sentir úteis, elevando nossa autoestima. Porém, viver só para isso retira totalmente nossas energias e gosto real pela vida, gerando problemas como depressão, estresse e insociabilidade. Colaborando, assim, para o fracasso.
Portanto, precisamos sempre buscar o meio. A perfeição de tudo se faz com a dose certa da diversos componentes. A água não é só oxigênio ou hidrogênio, mas sim um pouco de cada. O nosso corpo e todo universo funciona à base de uma equação composta de vários termos e variáveis, o que nos leva a repensar sempre as nossas medidas. Pois nossa dificuldade parece estar em entender que a perfeição está na aparente imperfeição.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Well... wel... well...

Mais uma vez estou eu aqui, acordado de madrugada a andar pela casa e finalmente rendido, começo a escrever para simplesmente tentar esvaziar a minha cabeça. Não sofro de insônia, ao contrário, uma das coisas que eu mais gosto é justamente dormir; mas o fato é que a madrugada, para mim, é o melhor período do dia. Não há nada melhor do que experimentar a quietude do universo, o silêncio das ruas e ter as estrelas por companhia. Poder olhar as luzes das cidades, observar o movimento dos poucos que andam esse horário por aí, ouvir rádio no volume mínimo, mas que ainda assim parece ensurdecedor agora. Além disso, são meus pensamentos que me roubam o sono. É de madrugada que todos eles afloram. Vêm de todos os lados, sobre todos os aspectos e simplesmente me causam uma inquietude que eu seria capaz de virar a noite apenas pensando sobre o mundo.  Sobre o meu mundo, o mundo dos outros e o mundo no qual estou inserido e não posso fugir dele.
Se bem que nos últimos dias tenho tido muitos motivos para estar inquieto. Minha mente tem girado em busca de resposta para o que a todos é óbvio, mas que para mim simplesmente não é. O que é totalmente compreensível, uma vez que eu não sou todo mundo. Uma vez que me enxergo completamente diferente de todo mundo. O fato é que ‘escolha’ é a palavra de ordem neste momento. O que escolhi há 10 segundos não é mais o que eu quero agora. Ou é, não sei. Simplesmente não sei. Alguns dizem que isso é confusão, mas oras, eu não sou o mesmo de 10 segundos atrás, o mundo não é o mesmo. Então porque raios eu não posso simplesmente mudar de opinião? Afinal, não é fácil fazer escolhas que mudarão completamente o seu futuro. A arriscar, transformar, encarar medos... Na teoria é tudo muito fácil e bonito, mas na prática, meu caro, só nós mesmos sabemos o que é.
Daí, fico eu aqui. Deitado com meu notebook sobre o colo a escrever. Sem saber o destino do texto, sem saber se o publicarei ou não. Esperando que como num passe de mágica surja a ideia avassaladora, que será a solução de tudo; mas ela não vem. Caracas, como é complicado. Escrevo, apago, leio, paro, penso, releio, faço uma pausa, desligo o rádio, ouço o silêncio, escrevo novamente, mas ainda não é isso o que eu quero escrever. É justamente assim a vida. É justamente assim que tem sido esses meus vinte e poucos anos. As pessoas têm a cara de pau de dizer que essa é a primavera da vida. Que são os melhores anos da vida de qualquer ser que passa sobre essa Terra. Como se nesta fase tudo o que fazemos é beber, dançar, ganhar dinheiro e sexo. Olha, se a regra é essa, parem o jogo porque alguém está me roubando!
Tudo para mim tem sido tão incerto. Agora é hora de ver no que vai dar o futuro. Não há como fantasiar como foi na infância, tão pouco especular como na adolescência. É hora de apostar com segurança. Ok! ainda posso cometer alguns erros, mas não posso vacilar e me demorar para fazer minhas apostas. É aquela máxima de fim de ano: o futuro já começou. E é isso que atormenta. Meu, toda a minha experiência vem da minha adolescência e infância. Como usá-la? Chamando meus amigos para formar um Megazord? Pedindo ajuda a minha tia-avó feiticeira ou ao mestre Splinter? Não, isso não dá!
Agora é hora em que eu simplesmente tenho que ponderar sonhos e realidade e tentar chegar a conclusões que simplesmente me causam medo de errar completamente, pois eu posso me arrepender para o resto da minha vida. Até porque, é agora, na “primavera da vida”, que as nossas escolhas são efetuadas em períodos mais longos e cujos resultados surtirão quando, talvez, já não haja mais tanto tempo hábil para se contornar ou retomá-los desde o começo.
Como escolher então? O que fazer, então? Será que é realmente complicado ou sou eu quem está complicando? Não sei. Mais uma coisa que eu simplesmente não sei.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Aos Meus Amigos

Amigos. Muitas são as definições, textos, declarações e toda forma possível de expressão sobre o eles. Isso talvez porque todos já tiveram (ou sentiram falta de) um. Comigo não foi diferente. Nunca tive muitos amigos, mas os que eu tenho são de muito valor e eu posso dizer que amo a todos. Por isso aprendi que há uma imensa distância entre ter um colega e ter um amigo.
É fácil gostar de alguém que você todos os dias, difícil é gostar quando há quilômetros de distância ou então anos entre os dois. É difícil confiar até naqueles que cresceram junto com você, mas no amigo depositamos uma confiança como a que temos em nós mesmos. Assim, o amigo é aquele que, para nós, deixa de ser só mais um na multidão e passa a ser uma forma de nós mesmo e, por isso, nunca nos deixa ficar sozinho em meio a ela. O amigo tem - não sabemos por qual razão - a capacidade de nos completar. Se não nos completa simplesmente nos acrescenta. Mas a verdade é: Não há como ter amigo e continuar a ser o que se era antes.
Meus amigos são meus amigos porque me querem como sou e eu os quero como eles são. Assim, como na Teoria de Darwin, há uma seleção natural, não é preciso se adaptar. Como acontece essa seleção eu não faço ideia, mas tudo o que sei é que fui agraciado com os mais belos amigos que poderia haver. Os amigos são os irmãos que a vida nos permite escolher. Eles têm defeitos, cometem erros, se machucam, me machucam e estão longe de serem super-heróis. Mas o que dizer? São meus amigos.
Sou feliz por saber que eles existem, mas a possibilidade de perdê-los me causa uma angústia como a de perder a que me deu a luz. Sinto muito por não tê-los por perto sempre, mas é muito bom saber que quando nos vemos é como se nunca tivéssemos nos mantido longe. A única razão para isso não acontecer é simples: o fato de nunca nos separarmos. Não são bons momentos passados que nos unem, mas é a força de um sentimento tão forte quanto o amor. Sentimento este exclusivo aos amigos. Afinal, com quem mais é possível fazer a equação da vida? Multiplicando alegrias, dividindo tristezas, somando esperanças e subtraindo frustrações sem nada barganhar?
Gostaria de aprender a dizer a todos os meus amigos o quanto eles são importantes para mim e o quanto eu gostaria que ficassem mais comigo, mas sinto por não saber fazê-lo. Muitas das vezes quando eu tento meto os pés pelas mãos e acho que eles não entendem. Mas o que mais quero é abraça-los mais, beijá-los mais, fazê-los mais de mim e poder ser mais por eles. Porque, ainda que não saibam, eles são muito pra mim. Obrigado a todos os meus amigos pelo simples fato de em sua existência terem cruzado o meu caminho.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O Analfabeto Político

"O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão,
do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio
dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia
a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta,
o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista,
pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo."
Nada é impossível de Mudar
"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de
hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem
sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente,
de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural
nada deve parecer impossível de mudar."
Privatizado
"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence."


Bertolt Brecht


- A luta é contra a privatização do Pensamento. Diferente do que querem fazer acreditar, não se resume a PM dentro ou PM fora do campus.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Não é a maconha a questão, mas sim o direito público. Precisamos acordar!

Não há mais como ficar rodando em torno do mesmo assunto enquanto a realidade é outra e pede ação imediata de todos. Os acontecimentos na USP têm tomado muito espaço na mídia, impressionado a sociedade, movimentado a comunidade USP, mas o foco está perdido, justamente num momento em que deveria ser pontual e claro. Esse fato evidencia que um plano muito bem elaborado está sendo cumprido e todos (comunidade acadêmica, principalmente alunos, e sociedade) estão caindo como presas fáceis. Isso porque grande maioria não sabe o que acontece dentro da gestão USP e os que sabem envolvem ideologias-políticas que, agora, não são e nem devem entrar na questão. É hora de todos os PAULISTAS e BRASILEIROS (separo unicamente por ser uma universidade paulista) envolverem-se, pois, sim, o que acontece hoje na USP diz respeito e atinge diretamente a todos.
Preocupa-me ver tanta acusação da sociedade que, iludida por uma imprensa tendenciosa, não sabe o que acontece dentro da maior universidade brasileira. Universidade essa que tem por propósito formar mentes que pensem, cidadãos críticos, intelectuais, agentes modificadores da sociedade. Cidadãos capazes de formarem mais mentes que pensem, e não simplesmente mão-de-obra qualificada. Que almeja expandir o número de cidadãos capazes de reivindicar os seus direitos, que não temem ao governo, mas que elegem e tornam-se um governo para o povo.  Sei que agora virá muitas críticas relembrando aos atos violentos e todo o espetáculo esdruxulo do dia 27 de outubro, mas esqueçamos disso por enquanto, pois, como disse inicialmente, o foco é outro. Todo o objetivo da Universidade de São Paulo é formar cidadãos brasileiros melhores. Não superiores, mas cidadãos capazes de alavancar o Estado e a Nação.
Por isso a universidade é pública, pois todos têm direito à educação de qualidade. No entanto, infelizmente a quantidade de vagas não é suficiente. Mas vejamos que no decorrer da história que esse número foi aumentando, que as oportunidades para o ingresso de alunos da rede pública (que sabemos, sofrem uma defasagem no ensino brutal) fosse possível e justa. Por isso, toda e qualquer questão da Universidade de São Paulo está ligada à sociedade. Não só porque esta paga impostos e uma mínima parcela deste é voltada para o ensino; até porque a USP é hoje praticamente autossuficiente financeiramente, graças ao seu alto número de pesquisa, promoção e, destaque nacional e internacional. Mas sim porque esta Universidade, assim como todas as demais públicas (em especial), investe no aprimoramento e desenvolvimento dos que darão rumo ao nosso país. E não simplesmente forma médicos, professores, advogados, engenheiros ou gestores. Com isso, o direito ao ingresso, o aumento do número de vagas e a expansão da universidade devem ser garantidos. Porém, é justamente o inverso que está acontecendo e a população não sabe disso, tão pouco é informada. Pior ainda, muitos alunos ainda desconhecem isso.
O que está por de baixo dos panos, que tem sido razão de um plano muito bem articulado pelo governo paulista, é a privatização da Universidade de São Paulo. O que isso significa? Privatizar a USP é torna-la mais do que nunca uma universidade da elite. Que não mais haverá a oportunidade de TODOS OS CIDADÃOS BRASILEIROS terem uma formação de qualidade. Significa sufocar a racionalidade dos alunos, produzindo não pensadores, críticos, mas meros profissionais executores de tarefas. Formar máquinas num sistema fabril, profissionais subordinados e uma sociedade débil. Dessa maneira, busca-se também sucatear a educação. Acreditem, o que está ruim pode piorar e muito. Pesquisas, desenvolvimento de programas e métodos, não mais servirão para a sociedade, mas, sim, serão vendidas às empresas privadas. Deixando, com isso, de ser um bem de todo povo para virar mercadoria a ser vendida aos que do povo possam pagar por ela.
Certamente dirão: “Felipe, você está completamente alienado”. Pois eu afirmo antes de tudo, não estou ligado a nenhum partido político (ao contrário procuro manter distância), tão pouco imaginando coisas ou com a ilusão de perseguição política. Pergunte a qualquer professor da USP, a qualquer funcionário e eles te dirão todas as mudanças que têm acontecido, como a universidade caminha para esse fim (a privatização) e como Estado e Reitoria estão ligados neste caso. O problema é a sociedade não se dá conta disso, que alunos não se dão. E, os que dão estão de tão ligados a partições políticas que manifestam ideologias, em minha opinião, um tanto utópicas (mas válidas). E a sociedade num todo, por não viver e ser posta tão distante do centro acadêmico, não toma ciência de tais eventos nem de suas consequências.
Qual o interesse do governo nisso tudo? Primeiro, ganhar dinheiro. Faturar alto. Afinal, pra que investir em educação? Pior ainda em cursos não rentáveis. Como Ciências Sociais, Geografia, Obstetrícia (que seria fechado esse ano, não fosse a mobilização estudantil contra o fechamento do curso). Para eles (Governo/Reitor) não importa o curso formar um cidadão competente em todas as suas faculdades, mas sim um gerador de lucro. Tão pouco interessa formar cidadãos questionadores, que sejam capazes de ir de encontro a seus planos. Assim, dificultando a formação real da sociedade, é muito mais fácil manipulá-la, coagi-la, domina-la, ditar a ordem.  (Não! Não sou partidário da esquerda. Sou um aluno, que tem tido essa formação que eles querem evitar que tenhamos. Que teve seus olhos abertos pela razão e consegue enxergar dia a dia que entrar na universidade não significa decorar uma série de conteúdos pra ganhar um diploma no final. Mas, sim, ter uma mente universal para fazer a diferença nas comunidades das quais sou membro.) Oras, que governo não quer ter o poder total?
Provas de que o que eu tenho dito é verdade? Fácil. A começar pela eleição do atual reitor: João Grandino Rodas. Houve uma seleção, houve uma votação, ele ficou em segundo lugar, mas o governador do estado (José Serra) decidiu colocar ele na reitoria. Detalhe: esta é a segunda vez que isso acontece na história da USP. Sabe quando foi a primeira? Durante a ditadura. Toda a comunidade USP (funcionários, professores e alunos) se revoltou contra isso. A democracia simplesmente foi atropelada, mas não foram ouvidos.
Pois bem, o que aconteceu durante a gestão Rodas. Primeiro passo: Separar Docentes (professores) e funcionários. Como? Ambos têm seu sindicato, que sempre estiveram juntos. Agora, cada um em um canto. Foi dificultada a comunicação entre eles. E mais, durante a época de aumento salarial, apenas os docentes receberam; finalidade: criar oposição entre os dois.
Mas as ações não param aí. Houve, ainda, às reformas estruturais. Todos os prédios administrativos da universidade foram afastados do campus. Ou seja, a reitoria fica em um lugar da cidade, a administração em outra mais longe, o financeiro mais longe ainda e tudo mais. Porque assim, não haveria manifestação alguma que paralisasse a universidade, impedindo, com isso, que a comunidade USPiana reúna-se e reivindique qualquer coisa (o que é um direito constitucional).
Da mesma forma, a educação. A começar pela mudança na ECA (Escola de Comunicação e Artes) que terá um novo prédio, onde os cursos serão segmentados em pavilhões dificultando a interação de alunos de todos os cursos. Também, e é impossível não citar, a FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humas) que vive à margem da USP. O prédio da faculdade literalmente está caindo aos pedaços. O curso de Letras foi transferido temporariamente para o prédio atual há mais de vinte anos. Dentre todas as melhorias feitas na USP nenhuma delas passa por aquela faculdade. Mas, ainda assim, é onde, segundo pesquisa internacional, se encontram 9 dos melhores cursos do mundo, sendo que 13 deles estão na USP. Ou seja, uma faculdade que representa tão bem a universidade não deveria ser tão esquecida. Mas é preciso lembrar que essas duas faculdades citadas, em especial a FFLCH, são as principais responsáveis pela construção do pensamento e ideia. Têm por essência a formação de pensadores e são essas que não temem represálias. Além do que são as primeiras a se manifestarem contra qualquer ato não democrático, opressivo e outros do gênero. Além disso, não são cursos tradicionais que trazem dinheiro como economia, engenharia e medicina. Então, fica fácil entender porque excluir esses cursos é benéfico no cumprimento de um plano para a erradicação do pensamento.
 Assim também, é evidente como a presença da polícia no campus veio a calhar. Se pesquisarem verão, que por questão histórica e legal (não me refiro à Ditadura) a PM não deve interferir no desenvolver da comunidade acadêmica. Deve apenas agir para investigação de casos, como o lastimável acontecido com o aluno da FEA. Há uma razão para isso. O objetivo é que por ser um centro de construção acadêmica, de pensamento e ideia o Estado não deve intervir justamente para não manipular isso a seu favor. Esse mesmo modele é usado em vários outros países como Inglaterra, França, EUA; e faz parte do regimento da USP desde a sua fundação.  Pois dessa maneira é assegurado ao povo que pense livre das ações do governo, que forme sua opinião. Mas o que tenho visto é que esse direito está em jogo e nós estamos de braços cruzados.
Toda a agitação em torno do evento após o dia 27, foi ideal para a tacada de mestre do governo e da gestão Rodas (que acho que está claro que trabalham juntos). Levando a imprensa a focarem nos lamentáveis atos violentos de alguns alunos que, como eu disse, acabam por misturar ideologias-políticas onde não cabem no momento, e com isso denigrem a imagem de todos os alunos e da faculdade dos quais fazem parte. Que, por consequência, perdem a credibilidade perante a sociedade. E nós que tentamos falar sobre os abusos aos direitos da sociedade, aqui já citados, somos totalmente ignorados. Pior ainda é ver a polarização dentro da comunidade USP, a falta de conhecimento da sociedade sobre os ocorridos e a universidade (um bem de todos) sendo tomada de nós às claras, sem fazermos nada.
Por fim poderão dizer: "Como pode 'simples' ações de restruturação ter tamanho efeito?" É fácil, afinal, uma das melhores formas de tirar algo povo sem que este note é colocando este em conflito consigo mesmo. Noto que, o plano (que fora meticulosamente tramado) está dando certo. Há total discordância entre comunidade USP e sociedade (que vêm sendo postas de lados contrários propositalmente, através da criação de uma imagem negativa de uma para a outra). E que os articuladores de tudo isso, riem, ganham e já calculam o quanto faturarão num futuro não muito distante. Por isso, é de extrema importância que acordemos para os fatos. Que os alunos alinhem seus pensamentos e passemos a falar a mesma língua, deixando de lado questões políticas secundaristas. Que discutamos e ajamos além dos gritos “PM SIM! ou PM NÃO!”. Que toda a comunidade USP (alunos, professores e funcionários) atuem em conjunto, que toda a sociedade tome ciência do que se passa aqui dentro de verdade (e que não somos playboys maconheiros e baderneiros); já que nessa história todos nós sairemos perdendo e muito. Afinal, a universidade e o conhecimento são um direito de todos e não de uma minoria (como tem sido ultimamente). Mas se quisermos que isso seja fato concreto temos que nos unir. Pois não é utopia, mas o nosso presente.