Os bichos dispararam
a galope para o pátio. Viram, então, o que ela vira. Um porco caminhava sobre as
duas patas traseiras. [...] Momentos depois saiu pela porta da casa uma
comprida coluna de porcos, todos caminhando sobre as patas de trás. [...] Houve
um silêncio mortal. Surpresos, aterrorizados, uns junto dos outros, os bichos
olhavam a fila de porcos marchar lentamente ao redor do pátio. Pareceu-lhes enxergar
o mundo de cabeça para baixo. Então veio um momento em que, passado o primeiro
choque e a despeito de tudo – a despeito do terror dos cachorros e do hábito,
arraigado após tantos anos, de nunca se queixarem, nunca criticarem, pouco
importa o que sucedesse-, poderiam lançar uma palavra de protesto. Mas
exatamente nesse instante, como se obedecessem a um sinal combinado, as
ovelhas, em uníssono, irromperam num balido espetacular: “Quatro pernas bom,
duas perna melhor! Quatro pernas bom, duas perna melhor!” – A revolução dos bichos, de
George Orwell, 1945.
O trecho acima é do livro que
terminei de ler esta semana. Não atendeu às minhas expectativas, mas é um livro
que com toda certeza deve ser lido por todos em algum momento da vida. Enfim,
das várias leituras que pude fazer do livro, a ideia do uso da mídia como forma
de controle autoritário e manipulação, foi uma das mais interessantes.
Resumindo, o livro trata sobre a
rebelião que os animais de uma fazenda fazem contra o dono deles após se
cansarem de ser tão distratados e perceberem que o ser dependente era o homem e
não os bichos. Expulsados os donos da fazenda, os animais se organizam a fim de
gerencia-la. A princípio, os porcos assumem o papel administrativo e
estratégico, mas pouco a pouco tomam o poder e passam a controlar os demais
animais da fazenda segundo seus próprios interesses. Porém agem de tal forma
que todos os bichos da fazenda acreditam estar fazendo o melhor para si e a
viver os melhores anos de suas vidas.
Uma das primeiras ações dos
animais foi o criar regras, leis, que deviam ser seguidas por todos. Entre
essas regras estava que todo animal que andasse sobre duas pernas era inimigo
(referência à locomoção humana) e que era terminantemente proibido aos bichos
andarem desta forma. As leis foram criadas pelos porcos, mas com “participação”
dos demais animais.
Impedir, de modo passivo, a
manifestação de ideias contrárias, desviar a atenção para acontecimentos sem
importância, distorcer fatos e ser incisivo ao pôr ideias favoráveis a seus interesses;
era uma das estratégias usadas pelos porcos para manipular os outros animais.
As ovelhas, animais pouco
inteligentes na história, eram um recurso de manipulação. Elas repetiam em alto
tom e continuamente frases que iam de encontro aos ideais suínos. Calando os
outros bichos. Durante toda a história as ovelhas aparecem cumprindo seu papel
com maestria, e os bichos cada dia mais perdem a voz.
Passam os anos e os animais não
se dão conta do que acontecem e tornam-se escravos voluntariamente. Os ideais
da revolução não se cumprem, os bichos pensam, mas não reclamam. E quando
tentam, não têm vez.
Levanto essa questão porque
nestas últimas semanas isso tem se cumprido na nossa sociedade e, assim como os
animais da fazenda, ninguém se da conta. Manifestações contra o sistema
educacional brasileiro acontecem em todo o país, mas a imprensa só dá valor a
um crime familiar e a um reality show.
Uma verdadeira avalanche acontece
na política nacional, escândalos políticos vêm à tona, e coincidentemente
segredos do passado de uma celebridade ganham as manchetes. Em pleno ano de eleições o destaque dos
jornais são campeonatos de futebol e de luta.
Então, vemos como temos sido
manipulados e aparentemente não nos damos conta disso. Passamos horas em frente
à televisão, mas não percebemos o que de fato é relevante. Dispusemo-nos a
discutir sobre tudo, exceto sobre aquilo que nos atinge diretamente. E diante
da perplexidade dos fatos, nos deixamos calar, mesmo assim. Assim, temos
sorrateiramente nossas ideias suprimidas e vozes caladas sem reagir a essa
ação.
Por isso, indignado eu penso: Até
quando o povo brasileiro será escravo voluntariamente? Até quando vamos
submeter o interesse coletivo ao de poucos. Até quando vamos ser passivos no
mundo em que vivemos, pensando em reclamar, mas permanecendo calados? Quando
será que finalmente compreenderemos que o poder é da maioria se esta se colocar
em posição de ataque?

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