Não há mais como ficar rodando em torno do mesmo assunto enquanto a realidade é outra e pede ação imediata de todos. Os acontecimentos na USP têm tomado muito espaço na mídia, impressionado a sociedade, movimentado a comunidade USP, mas o foco está perdido, justamente num momento em que deveria ser pontual e claro. Esse fato evidencia que um plano muito bem elaborado está sendo cumprido e todos (comunidade acadêmica, principalmente alunos, e sociedade) estão caindo como presas fáceis. Isso porque grande maioria não sabe o que acontece dentro da gestão USP e os que sabem envolvem ideologias-políticas que, agora, não são e nem devem entrar na questão. É hora de todos os PAULISTAS e BRASILEIROS (separo unicamente por ser uma universidade paulista) envolverem-se, pois, sim, o que acontece hoje na USP diz respeito e atinge diretamente a todos.
Preocupa-me ver tanta acusação da sociedade que, iludida por uma imprensa tendenciosa, não sabe o que acontece dentro da maior universidade brasileira. Universidade essa que tem por propósito formar mentes que pensem, cidadãos críticos, intelectuais, agentes modificadores da sociedade. Cidadãos capazes de formarem mais mentes que pensem, e não simplesmente mão-de-obra qualificada. Que almeja expandir o número de cidadãos capazes de reivindicar os seus direitos, que não temem ao governo, mas que elegem e tornam-se um governo para o povo. Sei que agora virá muitas críticas relembrando aos atos violentos e todo o espetáculo esdruxulo do dia 27 de outubro, mas esqueçamos disso por enquanto, pois, como disse inicialmente, o foco é outro. Todo o objetivo da Universidade de São Paulo é formar cidadãos brasileiros melhores. Não superiores, mas cidadãos capazes de alavancar o Estado e a Nação.
Por isso a universidade é pública, pois todos têm direito à educação de qualidade. No entanto, infelizmente a quantidade de vagas não é suficiente. Mas vejamos que no decorrer da história que esse número foi aumentando, que as oportunidades para o ingresso de alunos da rede pública (que sabemos, sofrem uma defasagem no ensino brutal) fosse possível e justa. Por isso, toda e qualquer questão da Universidade de São Paulo está ligada à sociedade. Não só porque esta paga impostos e uma mínima parcela deste é voltada para o ensino; até porque a USP é hoje praticamente autossuficiente financeiramente, graças ao seu alto número de pesquisa, promoção e, destaque nacional e internacional. Mas sim porque esta Universidade, assim como todas as demais públicas (em especial), investe no aprimoramento e desenvolvimento dos que darão rumo ao nosso país. E não simplesmente forma médicos, professores, advogados, engenheiros ou gestores. Com isso, o direito ao ingresso, o aumento do número de vagas e a expansão da universidade devem ser garantidos. Porém, é justamente o inverso que está acontecendo e a população não sabe disso, tão pouco é informada. Pior ainda, muitos alunos ainda desconhecem isso.
O que está por de baixo dos panos, que tem sido razão de um plano muito bem articulado pelo governo paulista, é a privatização da Universidade de São Paulo. O que isso significa? Privatizar a USP é torna-la mais do que nunca uma universidade da elite. Que não mais haverá a oportunidade de TODOS OS CIDADÃOS BRASILEIROS terem uma formação de qualidade. Significa sufocar a racionalidade dos alunos, produzindo não pensadores, críticos, mas meros profissionais executores de tarefas. Formar máquinas num sistema fabril, profissionais subordinados e uma sociedade débil. Dessa maneira, busca-se também sucatear a educação. Acreditem, o que está ruim pode piorar e muito. Pesquisas, desenvolvimento de programas e métodos, não mais servirão para a sociedade, mas, sim, serão vendidas às empresas privadas. Deixando, com isso, de ser um bem de todo povo para virar mercadoria a ser vendida aos que do povo possam pagar por ela.
Certamente dirão: “Felipe, você está completamente alienado”. Pois eu afirmo antes de tudo, não estou ligado a nenhum partido político (ao contrário procuro manter distância), tão pouco imaginando coisas ou com a ilusão de perseguição política. Pergunte a qualquer professor da USP, a qualquer funcionário e eles te dirão todas as mudanças que têm acontecido, como a universidade caminha para esse fim (a privatização) e como Estado e Reitoria estão ligados neste caso. O problema é a sociedade não se dá conta disso, que alunos não se dão. E, os que dão estão de tão ligados a partições políticas que manifestam ideologias, em minha opinião, um tanto utópicas (mas válidas). E a sociedade num todo, por não viver e ser posta tão distante do centro acadêmico, não toma ciência de tais eventos nem de suas consequências.
Qual o interesse do governo nisso tudo? Primeiro, ganhar dinheiro. Faturar alto. Afinal, pra que investir em educação? Pior ainda em cursos não rentáveis. Como Ciências Sociais, Geografia, Obstetrícia (que seria fechado esse ano, não fosse a mobilização estudantil contra o fechamento do curso). Para eles (Governo/Reitor) não importa o curso formar um cidadão competente em todas as suas faculdades, mas sim um gerador de lucro. Tão pouco interessa formar cidadãos questionadores, que sejam capazes de ir de encontro a seus planos. Assim, dificultando a formação real da sociedade, é muito mais fácil manipulá-la, coagi-la, domina-la, ditar a ordem. (Não! Não sou partidário da esquerda. Sou um aluno, que tem tido essa formação que eles querem evitar que tenhamos. Que teve seus olhos abertos pela razão e consegue enxergar dia a dia que entrar na universidade não significa decorar uma série de conteúdos pra ganhar um diploma no final. Mas, sim, ter uma mente universal para fazer a diferença nas comunidades das quais sou membro.) Oras, que governo não quer ter o poder total?
Provas de que o que eu tenho dito é verdade? Fácil. A começar pela eleição do atual reitor: João Grandino Rodas. Houve uma seleção, houve uma votação, ele ficou em segundo lugar, mas o governador do estado (José Serra) decidiu colocar ele na reitoria. Detalhe: esta é a segunda vez que isso acontece na história da USP. Sabe quando foi a primeira? Durante a ditadura. Toda a comunidade USP (funcionários, professores e alunos) se revoltou contra isso. A democracia simplesmente foi atropelada, mas não foram ouvidos.
Pois bem, o que aconteceu durante a gestão Rodas. Primeiro passo: Separar Docentes (professores) e funcionários. Como? Ambos têm seu sindicato, que sempre estiveram juntos. Agora, cada um em um canto. Foi dificultada a comunicação entre eles. E mais, durante a época de aumento salarial, apenas os docentes receberam; finalidade: criar oposição entre os dois.
Mas as ações não param aí. Houve, ainda, às reformas estruturais. Todos os prédios administrativos da universidade foram afastados do campus. Ou seja, a reitoria fica em um lugar da cidade, a administração em outra mais longe, o financeiro mais longe ainda e tudo mais. Porque assim, não haveria manifestação alguma que paralisasse a universidade, impedindo, com isso, que a comunidade USPiana reúna-se e reivindique qualquer coisa (o que é um direito constitucional).
Da mesma forma, a educação. A começar pela mudança na ECA (Escola de Comunicação e Artes) que terá um novo prédio, onde os cursos serão segmentados em pavilhões dificultando a interação de alunos de todos os cursos. Também, e é impossível não citar, a FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humas) que vive à margem da USP. O prédio da faculdade literalmente está caindo aos pedaços. O curso de Letras foi transferido temporariamente para o prédio atual há mais de vinte anos. Dentre todas as melhorias feitas na USP nenhuma delas passa por aquela faculdade. Mas, ainda assim, é onde, segundo pesquisa internacional, se encontram 9 dos melhores cursos do mundo, sendo que 13 deles estão na USP. Ou seja, uma faculdade que representa tão bem a universidade não deveria ser tão esquecida. Mas é preciso lembrar que essas duas faculdades citadas, em especial a FFLCH, são as principais responsáveis pela construção do pensamento e ideia. Têm por essência a formação de pensadores e são essas que não temem represálias. Além do que são as primeiras a se manifestarem contra qualquer ato não democrático, opressivo e outros do gênero. Além disso, não são cursos tradicionais que trazem dinheiro como economia, engenharia e medicina. Então, fica fácil entender porque excluir esses cursos é benéfico no cumprimento de um plano para a erradicação do pensamento.
Assim também, é evidente como a presença da polícia no campus veio a calhar. Se pesquisarem verão, que por questão histórica e legal (não me refiro à Ditadura) a PM não deve interferir no desenvolver da comunidade acadêmica. Deve apenas agir para investigação de casos, como o lastimável acontecido com o aluno da FEA. Há uma razão para isso. O objetivo é que por ser um centro de construção acadêmica, de pensamento e ideia o Estado não deve intervir justamente para não manipular isso a seu favor. Esse mesmo modele é usado em vários outros países como Inglaterra, França, EUA; e faz parte do regimento da USP desde a sua fundação. Pois dessa maneira é assegurado ao povo que pense livre das ações do governo, que forme sua opinião. Mas o que tenho visto é que esse direito está em jogo e nós estamos de braços cruzados.
Toda a agitação em torno do evento após o dia 27, foi ideal para a tacada de mestre do governo e da gestão Rodas (que acho que está claro que trabalham juntos). Levando a imprensa a focarem nos lamentáveis atos violentos de alguns alunos que, como eu disse, acabam por misturar ideologias-políticas onde não cabem no momento, e com isso denigrem a imagem de todos os alunos e da faculdade dos quais fazem parte. Que, por consequência, perdem a credibilidade perante a sociedade. E nós que tentamos falar sobre os abusos aos direitos da sociedade, aqui já citados, somos totalmente ignorados. Pior ainda é ver a polarização dentro da comunidade USP, a falta de conhecimento da sociedade sobre os ocorridos e a universidade (um bem de todos) sendo tomada de nós às claras, sem fazermos nada.
Por fim poderão dizer: "Como pode 'simples' ações de restruturação ter tamanho efeito?" É fácil, afinal, uma das melhores formas de tirar algo povo sem que este note é colocando este em conflito consigo mesmo. Noto que, o plano (que fora meticulosamente tramado) está dando certo. Há total discordância entre comunidade USP e sociedade (que vêm sendo postas de lados contrários propositalmente, através da criação de uma imagem negativa de uma para a outra). E que os articuladores de tudo isso, riem, ganham e já calculam o quanto faturarão num futuro não muito distante. Por isso, é de extrema importância que acordemos para os fatos. Que os alunos alinhem seus pensamentos e passemos a falar a mesma língua, deixando de lado questões políticas secundaristas. Que discutamos e ajamos além dos gritos “PM SIM! ou PM NÃO!”. Que toda a comunidade USP (alunos, professores e funcionários) atuem em conjunto, que toda a sociedade tome ciência do que se passa aqui dentro de verdade (e que não somos playboys maconheiros e baderneiros); já que nessa história todos nós sairemos perdendo e muito. Afinal, a universidade e o conhecimento são um direito de todos e não de uma minoria (como tem sido ultimamente). Mas se quisermos que isso seja fato concreto temos que nos unir. Pois não é utopia, mas o nosso presente.